Microcosmos: Uma homenagem às plantas sagradas das Américas

Introdução

A microscopia confocal de varredura a laser é uma técnica especializada de imagem ótica que fornece medições sem contato e não destrutivas de objetos tridimensionais.

Para esse website, plantas consideradas sagradas por grupos indígenas das Américas foram escaneadas no Centro de Microscopia e Imagem da Universidade St. Lawrence.

O procedimento recolhe informações de uma estreita profundidade de campo, ao mesmo tempo em que elimina o brilho desfocado e cria seções ópticas através de camadas de amostras biológicas. As imagens são construídas ao longo do tempo através da coleta de fótons emitidos por compostos químicos fluorescentes naturalmente contidos dentro das próprias plantas, criando uma visualização colorimétrica viva e precisa.

Prestar homenagem às plantas sagradas reverenciadas pelos grupos indígenas de todas as Américas é uma forma de honrar o mundo inteiro em uma época de emergência ambiental. O website – na conjuntura da arte, da tecnologia e da ciência – matiza a vida de maneiras que podem alterar a maneira como os seres humanos percebem outras entidades vivas da nossa biosfera compartilhada e ameaçada em termos mais igualitários.

As plantas se revelam como extensões do século XXIde formas biomórficas que foram a gênese de obras abstratas de artistas como Wassily Kandinsky e Paul Klee, há cem anos.

Algumas das plantas contêm os agentes psicoativos mais potentes do planeta e servem como intermediários que permitiram às comunidades nativas comunicar-se com seus ancestrais, travar guerras contra os inimigos de suas terras e suas tradições, conceituar cosmogonias inteiras, e manter um equilíbrio ecológico quase impossível.

Cada estoma, tricoma e fragmento padronizado de xilema e tecido vascular e cada grão de pólen nesses retratos vitais não é apenas uma forma de entrar em reinos vegetais nunca antes vistos, mas também uma forma potencial de sair de nossa crise coletiva.

Arte Visionária na St. Lawrence University

Este website reproduz e expande significativamente a exposição Microcosms: A Homage to Sacred Plants of the Americas na Galeria de Arte Brush da Universidade St. Lawrence, inaugurada em 2 de março de 2020 e, como tantas outras coisas em todo o mundo naquela época, foi forçada pela pandemia do Coronavirus a fechar prematuramente apenas duas semanas depois. Mesmo assim, o prazo para a preparação desse evento (cerca de quatro anos) obrigou Jill Pflugheber e eu a considerar as limitações de espaço da galeria e depois selecionar com rigor artístico e científico aproximadamente 50 imagens de cerca de 35 espécies diferentes de plantas para a exposição, imprimindo-as em grande formato (18″ x 18″) e organizando sua apresentação com painéis de texto de acordo com uma coerência geográfica aproximada, às vezes sobreposta (movendo-se de norte a sul através das Américas, ou vice-versa), em vez de um agrupamento previsível baseado unicamente em nomes científicos em ordem alfabética. A única exceção é Anadenanthera, que abre o site por razões históricas que serão explicadas mais adiante.  Para esse website, escolhemos uma seleção muito mais ampla de imagens confocais de um número ainda maior de plantas do que pudemos incluir na exposição original*.

O website de Microcosmos é uma extensão natural de duas exposições anteriores na Universidade St. Lawrence (além da Homenagem às Plantas Sagradas das Américas de 2020): Visões que as Plantas nos Deram (1999) e Visões Internas: Plantas Sagradas, Arte e Espiritualidade (2016), ambos com curadoria do professor Luis Eduardo Luna, que agora está aposentado da Escola Sueca de Economia de Helsinque, onde lecionou como Conferencista Sênior por muitos anos. Luna é atualmente o diretor da Wasiwaska, um centro de pesquisa para o estudo de plantas psicointegradoras, arte visionária e consciência, em Florianópolis, Brasil. Ele também foi nomeado Doutor em Letras Humanas pela Universidade St. Lawrence em 2002.

Essas exposições anteriores reuniram arte visual de numerosos artistas nacionais e internacionais, inclusive trabalhos de criadores indígenas que se identificam como Cashinahua, Huichol (Wixárica), Huni Kuin, Shipibo, Siona, e Witoto. Visões internas se inaugurou com uma extensa mostra dos desenhos botânicos precisos e elegantes de Donna Torres de muitas das mesmas plantas que aparecem aqui no site de Microcosmos.

Plantas dos deuses

Entendemos “sagrado” de uma maneira ampla, no sentido reverencial e respeitoso que os grupos ameríndios definem esse termo como um pacto espiritual, e incluímos uma variedade de plantas, do milho ao peiote, de Amaranto às plantas usadas para preparar o ayahuasca, do Foye Mapuche ao Yãkoana dos Yanomami, e de um Olluco de batata ancestral dos Incas ao cacto de San Pedro. Há também uma imagem bônus do fungo obrigatório conhecido pelos indígenas da Mesoamérica como Teonanácatl (carne dos deuses) para acompanhar todas essas plantas. Os textos que descrevem cada espécie individual esclarecem os usos medicinais e espirituais ameríndios associados a elas. Na maioria das vezes, as plantas veneradas que aparecem nessa coleção digital são psicoativas. Por quê? De acordo com o grande etnobotânico de Harvard Richard Evans Schultes e seu co-autor Albert Hofmann, o cientista suíço que foi o primeiro a sintetizar o LSD: “As plantas que alteram as funções normais da mente e do corpo sempre foram consideradas pelos povos das sociedades não industriais como sagradas, e os alucinógenos têm sido plantas dos deuses por excelência […] É no Novo Mundo que o número e o significado cultural das plantas alucinógenas são esmagadores, dominando cada fase da vida dos povos aborígenes”.

Arte Digital e Ferramentas para Percepção

Essas imagens de plantas consideradas sagradas por grupos indígenas das Américas por uma variedade de razões também podem ser vistas dentro do quadro crítico do Fitoformalismo Microcósmico, um termo que de fato me veio em um sonho, tão clichê quanto este pode soar, às 3 horas da manhã do dia 12 de fevereiro de 2020. Raspei as letras das palavras em duas linhas tensas num caderno de apontamentos com uma caneta na escuridão e voltei a dormir.  Em minha grata mente, foi emocionantemente perfeito, e espero que a reunião dessas imagens confocais permita que essa designação recém-descoberta germine como uma semente numa estrutura orgânica que nos ajudará a compreender o que e como vemos. De sua origem tecnológica, ela representa uma nova etapa de uma história sempre em evolução, tanto de microscopia quanto de arte, revelando cores, formas e texturas combinadas em uma visão convincente, relacionada ao crescimento, derivada de materiais biológicos vivos.

Aqui neste website, então, selecionada entre (literalmente) terabytes do que minha colega orientada para a ciência não pode deixar de referir-se como “dados”, é uma colheita de plantas digitais para visualizar uma ordem natural que sempre existiu, mesmo que tenha permanecido menos que perceptível até muito recentemente.

Segundo o artista húngaro da Bauhaus e o professor do MIT György Kepes, cujo trabalho pioneiro que explora as conexões entre arte e ciência é um precedente importante, “um padrão na natureza é um limite temporário que tanto separa e liga o passado como o futuro dos processos que o traçam”. Cada padrão, diz ele, é uma “fronteira espaço-temporal de energias em organização”.

Como o telescópio Hubble, que produziu tantas imagens celestiais icônicas, o  microscópio confocal é um instrumento de percepção que expande os filtros biológicos estreitos da humanidade. E agora, usamos nossos olhos humanos e visão tecnológica para projetar o Telescópio Espacial James Webb para que possamos perceber o universo em cores que nenhum olho humano jamais viu. Essas formas de ver além podem ser paralelas aos efeitos neurológicos das plantas de poder, pois elas mesmas atravessaram barreiras hemato-encefálicas e exerceram suas profundas influências em contextos rituais, em alguns casos, por milênios.

É possível imaginar essas imagens digitais como arte que respira? Poderíamos respirar com os estômatos que aparecem diante de nossos olhos? Essa arte microcósmica reflete processos biológicos que permitem ao ser humano participar com as plantas de um co-becoming? Será um exemplo de como o infinitamente pequeno começa a aproximar-se do infinitamente vasto, da maneira como imagens recentes do sol mostram uma superfície que se assemelha a uma miríade de grãos de milho, cada um dos quais do tamanho do estado do Texas?

Nessas paisagens microscópicas inspiradoras, nascidas de uma simbiose arte-ciência, há às vezes uma preferência intencional (especialmente da minha parte) não por formas inteiras perfeitas e incólumes, mas sim pela beleza de um tricoma quebrado, um grão de pólen em colapso, tecido vascular rasgado e estruturas rompidas talvez pela longa viagem clandestina de uma planta através das fronteiras e dentro de sistemas restritivos.

Esta é uma arte transgressiva, uma arte de resistência. A arte, finalmente, de sobreviver num mundo ameaçador, no qual as leis e as forças repressivas de segurança com poder desmedido continuam a discriminar as plantas, perseguindo e aprisionando as pessoas que as usam para fins espirituais e acadêmicos. Tragicamente, o medo violento que está por trás e alimenta a Inquisição espanhola do passado ainda é uma grave ameaça no século XXI em todo o mundo! A guerra às drogas é uma guerra à consciência.

Lendo Plant-Thinking: A Philosophy of Vegetal Life (2013) deMichael Marder, comecei a fazer algumas perguntas a mim mesmo: Como podemos dar um novo destaque à vitalidade das plantas? Como é possível encontrarmos plantas e não tomá-las como garantidas? As plantas são tão absolutamente familiares, mas ao mesmo tempo tão estranhas. Consideramos as plantas com o que Marder chama de “atitude instrumental”, sempre nos perguntando como podemos colocá-las em bom uso material. Mas, se conseguíssemos superar os obstáculos que erguemos entre nós como seres humanos e com as plantas, poderíamos de alguma maneira transformar nossa abordagem utilitária da vida vegetal (em sua espantosa variedade) em uma maneira de percebê-la de maneira diferente, “recriando a planta na imaginação”?

Neste sentido, The Farther Shore: A Natural History of Perception de Don Gifford, meu professor favorito quando eu era aluno do Williams College nos anos 70, fornece alguns insights históricos, científicos e estéticos fascinantes a respeito da percepção como “filtro criativo” e da importância de termos consciência de como estamos percebendo, especialmente na “presença mediadora dos instrumentos ópticos”. Um microscópio confocal se encaixaria perfeitamente na categoria de ferramentas que ajudam a difamiliar o que Gifford chama de “um mundo cotidiano muito familiar”. As imagens das plantas sagradas como arte digital tornam o conhecido de repente, e talvez chocantemente, desconhecido. Como locais de contemplação, elas podem desencadear experiências visionárias de formas correspondentes a noções românticas de tempo que podem ser encontradas em poetas como Wordsworth. As imagens, como os poemas, inextricavelmente ligados ao mundo natural, são um meio de visão terapêutica: podem tornar-se, nas palavras de Gifford, uma “seqüência de visões microcósmicas da eternidade totalmente lembrada e, portanto, repetível”. A estranha e edificante arte confocal das plantas efêmeras e as moléculas que elas contêm são portais para o que será preciso para prevalecer na guerra climática.   

Talvez esse site de Microcosmos possa nos sacudir e nos colocar em um espaço necessário de transformação psicológica, agora, antes que seja tarde demais. A tecnologia deste século pode, portanto, tornar-se um meio de facilitar a homenagem aos incrivelmente diversos princípios de ordenação das plantas-maestras que são a base da espiritualidade ameríndia, bem diante de nossos olhos. Leve seu tempo com essas imagens. Elas ainda estarão aqui, embora talvez com novos significados, quando você voltar de viagens internas. Se precisar conhecer essas plantas de outras maneiras, elas o encontrarão.

Em Art as Organism: Biology and the Evolution of the Digital Image, a professora de Estudos Estéticos Charissa N. Terranova encontra ligações teóricas entre a biologia e a imagem digital que coincidem perfeitamente com os objetivos de Microcosmos: Uma Homenagem às Plantas Sagradas das Américas: “Estendendo-se para fora da arte, voltando ao mundo em ação emergente, esta história se conecta a uma política maior de ecologia, meio ambiente e mudanças climáticas radicais e rápidas – ou a vida no tempo do antropoceno”.

Antecedentes artísticos e científicos aos Microcosmos

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o grande poeta alemão, também inventou a palavra “morfologia” que Gordon L. Miller define como “uma ciência de formas orgânicas e forças formativas destinadas a descobrir a unidade subjacente na vasta diversidade de plantas e animais”. Goethe foi o autor de The Metamorphoses of Plants, publicada originalmente em 1790, obra que transformou o pensamento biológico do século XIX.

Com a melhora da microscopia durante sua vida, o artista botânico austríaco Franz Bauer (1758-1840) conseguiu produzir estudos primorosamente detalhados de uma grande variedade de tipos de pólen.

Trustees of the Natural History Museum, London
Trustees of the Natural History Museum, London

Sobre Anna Atkins (1799-1871), a primeira fotógrafa e inventora do cianótipo, por meio do qual ela criou imagens de plantas detalhadas de algas da Grã-Bretanha que ela publicou em forma de livro em 1843, Larry J. Schaaf afirma que “no curso de um esforço científico, Anna Atkins transformou seu “gosto pela botânica” em símbolos duradouros de beleza e expressão”. 

Ernst Haeckel (1834-1919), que cunhou a palavra ecologia em 1866, é o artista que produziu a influente obra Kunstformen der Natur em 1904. Seus desenhos precisos de radiolários microscópicos (1862) foram particularmente influentes nas simetrias arquitetônicas que surgiram do movimento Art Nouveau e nos artistas de Jugendstil do final do século XIX, ligando assim a estética às teorias darwinianas da evolução.

Em 1923, R. H. Francé (1874-1943), que poderia ser caracterizado como uma continuação do modelo do cientista romântico alemão, escreveu: “É somente nos últimos trinta anos que o microscópio foi aperfeiçoado ao ponto de espionar a minuciosa e secreta estrutura da célula”. De acordo com as idéias ambientais contemporâneas, ele acreditava que “o mundo é uma unidade, cada parte da qual influencia todas as outras”. Redenção e soluções, afirmou ele, só poderiam ser alcançadas agindo em harmonia com as forças do mundo natural. Em Germs of Mind in Plants (1905), Francé exclama com entusiasmo desenfreado que, após a invenção da lente acromática e da capacidade da microscopia de revelar mundos antes invisíveis em detalhes e cores incríveis, “estamos agora num certo sentido, considerando os próprios fundamentos do conhecimento”.

Wassily Kandinsky (1866-1944), um dos fundadores da arte abstrata cujas formas biomórficas derivam de seus conhecimentos de biologia, escreveu o seguinte em 1935: “Essa experiência da alma oculta em todas as coisas vistas quer pelo olho nu, quer através de microscópios ou binóculos, é o que eu chamo de olho interno. Esse olho penetra a casca dura, a forma externa, penetra profundamente no objeto e nos deixa sentir com todo o nosso sentido seu pulso interno”. Essas idéias são abundantemente evidentes no “Conjunto colorido” (1938), “Listrado” (1934) e “Curva Dominante” (1936) da coleção Solomon R. Guggenheim.

Outros artistas que incorporaram biomorfos como uma tentativa de capturar novas paisagens microscópicas estranhas em seus trabalhos incluem Hans Arp (1886-1966) e Joan Miró (1893-1983) em seu quadro “Carnaval do Arlequim” (1924-25).

Depois que ficou fascinado com a pesquisa pioneira sobre doenças contagiosas publicada pelo microbiologista francês Louis Pasteur (1822-1895) e começou a colaborar com o botânico Armand Clavaud (1828-1890), Odilon Redon (1840-1916) pintou microorganismos com características humanas.

Para Richard Verdi, muitos quadros de Paul Klee (1879-1940) retratam “o mundo secreto da vida microscópica”. Exemplos incluem “Pflanzlich-Seltsam” (Estranho como planta) (1929)

e “Vorhaben” (Intenção) (1938) com seu macrocosmo e microcosmo justapostos, mundos externos e internos mediados pela forma humana.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vorhaben_(Intenção)_por_Paul_Klee,_1938.jpg

As Foto-Micrografias Decorativas (1931) por Laure Albin-Guillot (1879-1962) são um antecedente especialmente notável em termos de sua atenção ao padrão e abstração de formas vegetais através do amplificador do microscópio, quebrando assim as barreiras entre a ciência e as artes visuais. 

Nas primeiras décadas do século XIX, a obsessão artística pela ciência e pelas novas tecnologias levou o escritor italiano F. T. Marinetti (1876-1944) e os Futuristas a apoiarem o fascismo, enquanto outros artistas como o renomado muralista mexicano Diego Rivera (1886-1957) abraçaram ideais comunistas utópicos, especialmente no “Homem, Controlador do Universo” de Rivera, com sua representação de uma série de plantas, um microscópio e a vida celular no centro da pintura.

Sobre Karl Blossfeldt (1865-1932), cujas fotografias de perto de plantas em Urformen Der Kunst (1929) redefinindo as formas originais da natureza como abstração, Walter Benjamin escreveu o seguinte em 1928: “Se aceleramos o crescimento de uma planta por meio da fotografia do time-lapse ou mostramos sua forma em quarenta vezes maior, em ambos os casos um géiser de novas imagens sibila em pontos de nossa existência onde menos os teríamos considerado possíveis”. 

Lázló Moholy-Nagy (1895-1946), o pioneiro do biofuncionalismo Bauhaus, é caracterizado por Oliver A. I. Botar como o “protótipo do artista progressista, vanguardista, tecno-optimista e otimista da mídia”. Suas obras The New Vision: From Material to Architecture (1932) e Vision in Motion (1947) ainda permanecem visualmente convincentes e provocantes. Seus fotogramas florais dos anos 1920 são abstrações particularmente evocativas baseadas em formas orgânicas.

Carl Strüwe (1898-1988) é o autor alemão de Formen des Mikrokosmos (Formas do Microcosmos) (1955), uma coleção surpreendentemente bela de 280 fotografias tiradas através de microscópios ao longo de um período de cerca de três décadas. Materiais publicitários para uma exposição individual no Museu do Brooklyn em 1949 afirmam que as microfotografias de Strüwe “muitas vezes nos lembram artistas modernos como Klee ou Kandinsky e, no entanto, não invadem o campo da pintura”. Ao contrário, sugerem possíveis fontes e explicações para a arte abstrata moderna, desenterrando todo um mundo de beleza invisível a olho nu”. Uma das obras apresentadas na exposição de Strüwe na Galeria Steven Kasher em Nova York em 2016 foi “Archetype of Individuality” (1933):

Gyorgy Kepes (1906-2001), o artista, fotógrafo, designer e educador húngaro, que colaborou com Moholy-Nagy, é o autor do ainda altamente relevante The New Landscape in Art and Science (1956), bem como da série Vision + Value (1965-1972). A teórica da arte Charissa N. Terranova acredita que as fotografias de Kepes reformulam “a utilidade científica como arte abstrata”. Ela acredita que seu trabalho é melhor descrito como “visão exteriorizada pela tecnologia”.

Seus fotogramas, por exemplo, produzidos em Chicago de 1938-1942, foram feitos sem máquina fotográfica, arranjando objetos naturais diretamente em papel sensível à luz em uma sala escura.

Além disso, não se deve subestimar a influência do filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), cujo conceito élan vital da Evolução Criativa (1907) foi fundamental para definir como o tempo bergsoniano liga a produção biológica e a geração de obras de arte.

Quando criança, o filósofo ambiental Michael Marder foi enviado por médicos soviéticos em Moscou em uma viagem ao sul, em Ucrânia, onde o clima mais ameno era para curar sua doença. Em vez disso, isso o colocou no caminho invisível e incerto da queda de radiação do desastre da usina nuclear de Chernobyl de abril de 1986. No The Chernobyl Herbarium: Fragments of an Exploded Consciousness (Herbário de Chernobyl: fragmentos de uma consciência explodida) (2016), Marder colabora com a artista visual francesa contemporânea Anaïs Tondeur para produzir uma meditação esmagadora e dolorosa sobre o que Marder chama de “vulnerabilidade da vida, ampliada pelo fracasso da razão para nos proteger do lado de cá da divisão belo/sublime”. Os trabalhos de Tondeur são fotogramas “criados através das impressões diretas de espécimes de herbário radioativo, cultivados no solo da “zona de exclusão” por Martin Hajduch do Instituto de Genética e Biotecnologia Vegetal da Academia Eslovaca de Ciências e dispostos em papel fotossensível”. Os autores esperam que sua colaboração cultive um “modo de vida mais ecologicamente correto”. The Chernobyl Herbarium é de livre acesso pela Open Humanities Press:

Geranium chinum by Anaïs Tondeu
Geranium chinum by Anaïs Tondeur

No mundo da arte contemporânea, a incorporação de imagens microscópicas por Alexis Rockman em suas pinturas é a base de “Drop of Water” (2017) de seu projeto “The Great Lakes Cycle”, para o qual o artista, como ele diz, criou “uma linguagem híbrida que é psicodelia natural da história”.

O Sagrado e o Pequeno

Ralph Metzner descreve duas comparações comuns feitas por escritores a respeito de experiências com substâncias psicoativas: “Uma é a analogia do amplificador, segundo a qual a droga funciona como um amplificador não específico de estímulos internos e externos […] A outra analogia é a metáfora do microscópio. Tem sido dito repetidamente que os psicodélicos poderiam desempenhar o mesmo papel em psicologia que o microscópio desempenha em biologia: abrir reinos na mente humana para a observação direta, repetível, verificável, que até agora têm sido em grande parte escondidos ou inacessíveis”.

Segundo Hope MacLean, “o artista Huichol Alejandro López de la Torre […] me disse que quando olhamos para o mundo dos deuses, é como se estivéssemos olhando através de um telescópio”. Os deuses parecem muito pequenos ou muito distantes. A mesma coisa acontece quando os xamãs olham para seus espelhos. Os deuses são visíveis como pequenas imagens redondas, como imagens vistas pela ponta errada de um telescópio”. Um exemplo desse fenômeno é “Visión de un mundo místico” do Museo Zacatecano de Arte Huichol, de Santos Motoapohua de la Torre.

Nomeação das Plantas

As imagens digitais das plantas neste website são identificadas por seus nomes científicos (nomenclatura binomial=gênero + epíteto específico), famílias, e também seus nomes comuns em uma grande variedade de línguas indígenas, espanhol, português e inglês.

Wade Davis tem algumas idéias interessantes a respeito do processo de nomeação e categorização das plantas com base em sua experiência com os indígenas que consultou em suas muitas viagens à Amazônia: “Wepe, como todos os Waorani que conheci, revelou-se não apenas um observador aguçado, mas um naturalista excepcionalmente hábil.

Ele reconheceu fenômenos conceitualmente complexos como polinização e dispersão de frutos, e compreendeu e pôde prever com precisão o comportamento animal.

Ele poderia antecipar os ciclos de floração e frutificação de todas as plantas florestais comestíveis, enumerar os alimentos preferidos da maioria dos animais da floresta e identificar com precisão os lugares onde eles dormiram. 

Não foi apenas a sofisticação de suas interpretações das relações biológicas que me impressionou; foi a maneira como ele classificou o mundo natural.

Muitas vezes ele não podia dar-me o nome de uma planta, porque cada raiz parcial, fruto, folha, casca de árvore, tinha seu próprio nome.

Tampouco poderia simplesmente rotular uma árvore frutífera sem enumerar todos os animais e aves que dela dependiam. 

Sua compreensão da floresta impediu os estreitos limites da nomenclatura.

Toda planta útil não tinha apenas uma identidade, mas uma história…”.

Olhando para o futuro

Como escreveu Glenn H. Shepard Jr., “embora agora se saiba muito bem como as plantas e os compostos psicoativos produzem seus efeitos peculiares na mente humana, ainda é em grande parte um mistério a razão pela qual certas plantas produzem tais compostos”.

Em outras palavras, por que cerca de 100 plantas de entre talvez meio milhão de espécies diferentes de plantas fazem essas substâncias que podem potencializar efeitos profundos na consciência da humanidade de nossa relação destrutiva (ou mesmo sua oposta mais igualitária) com o mundo natural?

Isso indica algum tipo de co-evolução mutuamente benéfica?  Schultes e Hofmann chamam isso de “um dos enigmas não resolvidos da natureza”.

John C. Ryan, autor do estudo pioneiro Posthuman Plants: Rethinking the Vegetal through Culture, Art, and Poetry (2015), declara inequivocamente: “A recepção do bem etnobotânico deve ser equilibrada pela devolução do bem às próprias plantas, aos ambientes em que crescem naturalmente, e aos povos indígenas cujo patrimônio cultural envolve o conhecimento médico das espécies.

Não basta privilegiar o cultivo de plantas curativas como solução para o seu desaparecimento na natureza.

Com o declínio das espécies, os sistemas de conhecimento ecocultural associados a elas se tornam em risco…”

Ele continua, dizendo que “um resultado potencialmente transformador da arte ecodigital é a mudança das percepções e comportamentos do público em relação à natureza e à relação fraturada da humanidade com a vida vegetal”.

Para fazer esse trabalho de maneira eficaz, Ryan pede interdisciplinaridade: “Um ecodigitalista é um ambientalista, artista, poeta, cientista, engenheiro, conservador, botânico, ou todos os acima mencionados?”

Para concluir, é urgentemente importante destacar o que diz Jonathan Ott em sua magnum opus Pharmacotheon: “Creio firmemente que o uso espiritual contemporâneo de drogas enteógenas é uma das esperanças mais brilhantes da humanidade para superar a crise ecológica com a qual ameaçamos a biosfera e colocamos em risco nossa própria sobrevivência, pois o Homo sapiens está perto do topo da lista das espécies ameaçadas de extinção”.(Veja Kirkham e Letheby para saber mais sobre como os psicodélicos podem contribuir para uma forma do que os autores chamam de “bio-aprimoramento moral” e “comportamentos pró-ambientais”.)

As plantas-maestras neste website, Microcosmos: uma homenagem às plantas sagradas das Américas, respeitadas, vistas juntas e magnificadas de maneira esteticamente inovadora, antes desconhecida, pode levar a uma mudança de consciência.

Acknowledgments

Finalmente, gostaríamos de agradecer profundamente a Eric Williams-Bergen por sua experiência voluntária no projeto e construção deste website (com a ajuda de Eden Williams-Bergen e Jean Williams-Bergen). Também queremos expressar nosso apreço a Catherine Tedford, diretora da Brush Art Gallery da Universidade St. Lawrence, a sua equipe, bem como a Josephine Skiff, diretora assistente do Newell Center for Arts Technology, por sua habilidade coletiva e persistência que nos permitiu superar muitos desafios e tornar possível a exposição de março de 2020. Pessoalmente, posso dizer que tem sido um privilégio raro e uma honra para mim cuidar dessas muitas plantas em casa nos últimos cinco anos. Esthela Calderón e Becky Harblin merecem um reconhecimento especial por ajudarem a fotografar e a cultivar as próprias plantas que aparecem neste site. Peter Wroblewski também participou desse projeto de uma maneira realmente generosa e teve a gentileza de se juntar a nós em Canton para a inauguração da exposição de março de 2020. No site está incluída uma bibliografia para posterior leitura, bem como algumas fontes para a obtenção de sementes e plantas vivas.